sexta-feira, 28 de setembro de 2012

CHOQUE DE REALIDADE


Hoje, depois de algum tempo, precisei do serviço público de saúde na cidade de Salvador, no estado da Bahia, no país Brasil, para socorrer o meu sobrinho que estava perdendo os sentidos em intervalos de 1h e ardendo em febre. 
A dúvida era: “Será que morri, fui para o inferno e ninguém me contou?”

 Sei que a maioria dos meus amigos tem plano de saúde e, por isso, assim como eu, “entende” a dor e o sofrimento que "vê" nos telejornais.

Amigos, posso garantir: o que vemos na TV não é nada! 

1ª tentativa: 26/09/2012, 5º Centro de Saúde – Vasco da Gama/ Garcia, 08h32 da manhã: ao chegar percebo o desespero e a incredulidade nas faces de todos os convalescentes e imediatamente, a placa :

                          TEMPO PREVISTO PARA ATENDIMENTO: 10 HORAS

 Esperar 10 horas?

Serão 10 horas de dor, 10 horas de angústia, 10 horas de exposição a outros dramas, 10 horas de exposição a outros vírus... 10 horas de raiva, 10 horas de humilhação!!!

Melhor ir até a  farmácia comprar Tylenol... o médico certamente iria concluir que era uma “virose” e receitaria isto mesmo... 

Não houve melhora. A febre permaneceu e, as 4h40 da manhã ele estava desacordado no meio da cozinha.

“Senhor, onde ir?”

2ª tentativa: 27/09/2012, Hospital Ernesto Simões Filho, Caixa D’Agua, 5h20 da manhã: o rapaz pálido, suando por todos os poros e sem cor, em via de perder os sentidos novamente.

 Emergência:

- Bom dia, senhora. Preciso de um atendimento de emergência.

Sem perceber que havia um ser humano na sua frente, a atendente se quer, levanta o olhar na direção do ruído.

Novamente: - Bom dia, senhora. Preciso de um atendimento de emergência.

Enfim um: 

- Diga...

- Preciso de um atendimento de emergência... ele está perdendo os sentidos novamente...

- Aguarde aí do lado que vai passar pela triagem.

- Obrigada. 

Seguimos para o local indicado e o “porteiro-médico”:
- O que ele tem?
Queria saber a enfermidade e, pareceu-me que não nos iria deixar passar se não respondesse. Então eu disse:

- Falar com um médico.

E ele abriu o portão do hospício, purgatório, ainda não sei bem: pessoas em macas sem colchões, idosos em cadeiras precárias, homens, mulheres, entregues ao descaso de um serviço que pagam...

Após uns 10 minutos,  saiu a 5ª pessoa que estava à nossa frente. (A tal "triagem" levava menos de 2 minutos)

Nossa vez:

- Bom dia, Doutora... este é meu sobrinho. Ele está, blá, blá, blá...

Ela se levantou, antes que eu concluísse os sintomas  e fez alguns movimentos na cabeça dele com as ponstas dos dedos indicadores e polegares e correu para lavar as mãos com sabão e muita água.

Sem saber da condição monetária para deslocamento, sem medir a pressão arterial, sem verificar a garganta, ou seja, apenas com as pontas dos dedos que lavou em desespero e me fez pensar mil coisas terríveis, deu a seguinte “sugestão”:

- Nuca livre. Leve-o para o Posto do Curuzu que lá faz exame de sangue... o posto com laboratório daqui está fechado. 

Desnorteada e sem saber o que pensar, fui ao tal Posto. 

3ª tentativa: 27/09/2012, Posto do Curuzu, Liberdade, 6h00 da manhã: mais uma vez, dirijo-me a uma atendente:

- Bom dia, senhora. Preciso de um atendimento de emergência.

Sem qualquer saudação:

 - Documento...

Entreguei os documentos, ela preencheu alguns papéis e falou:

- Aguarde aí que o médico vai chamar. 

Eu entendi a mensagem “aguarde aí!”,  só foi difícil aceitar que o local de espera de uma emergência era debaixo do sol em bancos de alvenaria onde dormia um cachorro sarnento com mosquitos a sua volta. Algumas outras pessoas com cara de dor e desalento.

Sentamos.

O rapaz estava sem cor, suava muito... o mal-estar estava de volta e a minha aflição aumentava...  

Ouvimos o nome dele e nos dirigimos a porta (eu, minha mãe e o meu sobrinho).

Dois “seguranças” montados, cada um em sua cadeira, como se estivessem em um bar (o encosto servia de apoio para os cotovelos), berraram: -

- Só um acompanhante, senhora!

Minha mãe falou: - Então ajudem! Ele está desmaiando.

 Ele nem fizeram menção de movimento. Reuni todas as minhas forças e arrastei o meu sobrinho até a sala do médico.

 Aflita disse:

- Bom dia, doutor. Estou aqui, vez que, estive no Ernesto Simões e a médica disse-me que aqui poderia fazer os exames que ele precisa e, blá, blá, blá...

Antes que eu terminasse de falar ele, sem nos destinar um olhar, sem se levantar da cadeira, disse:

- Não... aqui não faz exame nenhum.

- Doutor,ajude-me... ele vai desmaiar novamente...

 E ele desmaiou.

O cidadão, formado em medicina que fez um juramento com a vida, disse-me:

 - Eu nem tenho tensiômetro...

- Doutor, por favor!!!

- Peraí que eu vou ver se tem um ali... – disse ele.

 Voltou em 30 segundos:

- Tem não... eu vou passar um sorinho, um remedinho e depois você leva ele para o Hospital São Jorge, no Largo de Roma. Lá faz... no Hospital do Subúrbio também...

As lágrimas de raiva e indignação caiam dos meus olhos sem controle, sem que eu entendesse direito o que estava acontecendo...

Peguei o papel na mão do médico, com o garoto voltando a si com muita dificuldade e segui para a sala de observação...

Jesus Cristo! Era a própria visão do inferno... parecia filme: as poltronas onde as pessoas recebiam soro estavam com os estofados rasgados, como se um cachorro tivesse feito aquilo... odores... e todos juntos. Desta vez: crianças, idosos, senhoras...

Acomodei o meu sobrinho em uma das cadeiras e me dirigi ao posto de enfermagem.

Uma senhora entrou e saiu. Nem respondeu ao meu “bom dia”, outra e outra...

Até que, uma falou:

- Diga...

- Bom dia. É aquele rapaz ali.

Entreguei a instrução do médico (Soro, Plasil e Dipirona).

Ela, arrastando os pés, foi preparar a medicação.

Voltou em 10 minutos e começou a aplicar.

Quando concluiu a segunda seringa, perguntou:

- Ele é alérgico a algum medicamento?

Possuída por um espírito zombeteiro, ciente do que estava escrito no papel disse:

 - Sim. Ele tem alergia a PLASIL.

Ela, de forma indignada e revoltada, disse:

- E você não me diz nada???

Eu respondi com um sorriso maligno:

- Nem você, nem o médico perguntaram. Por isso não disse, mas pode continuar, ele não é alérgico.... se não me engano é sua obrigação e do médico perguntar, certo?

Ela me olhou com cara de monstro e ia saindo quando eu perguntei:

- Tem uma maca, cama...?

- Tem uma lá dentro. Peraí que eu vou pegar o lençol.

 E trouxe um pedaço de cami para cobrir o encerado do leito enferrujado.

Uma criancinha e sua mãe dormiam no local destinado a observação/ recuperação de homens, enfim...

Neste exato momento, 27/09/2012, 17h14 o meu sobrinho está vivo.

O que ele tem?

Ainda não sabemos...

Precisamos nos recuperar do choque para darmos continuidade ao processo humilhante e torturante que é ter um atendimento na rede de saúde pública em Salvador.

Sem subestimar ou duvidar que tem um propósito,  gostaria muitíssimo de saber o que ELE, o Todo Poderoso, pretende com isso tudo.

Sim... Eu acredito que tem um propósito, e preciso manter esta fé intacta, do contrário, mato ou morro com tanta injustiça. 

Malditos e desprezíveis gestores deste país, a vocês destino todo o meu desprezo e repúdio e, tudo que vivi neste dia e o que muitas pessoas estão vivendo neste momento, destino toda culpa a vocês ratazanas miseráveis que metem a mão no que não lhes pertencem e, a desgraça que é o meio de comunicação chamado televisão: que aliena, manipula, corrompe, exclui, ignora e usurpa a inteligência de todo um povo já que quem a “regula” são os tais citados acima.

Espero que vocês, no momento em que estiverem gozando dos prazeres que o nosso dinheiro lhes proporciona, sintam o cheiro e o gosto de tudo de podre que estão plantando neste país.

A propósito, amaldiçoados: não voto em ninguém, principalmente em quem já esteve no poder de alguma forma, afinal, isto tudo é reflexo de vocês, corruptela maldita! 

A todos que se julgam um pouco menos alienados, imploro que façam alguma reflexão. Pensem em como podemos mudar esta situação em meio a tantas outras muitas injustiças provenientes desta cultura de corrupção que já aceitamos e entendemos como “natural” por parte destes bandidos engravatados.

É uma quadrilha muito organizada, mas com inteligência e boa vontade, será que não vamos encontrar uma saída?

Se pensarem em algo, se lhes ocorrer algum plano possível, por favor: convidem-me para ajudá-los.
Estou mesmo muito cansada deste meu papel de “cidadã vítima”.

Quero ser cidadã!

Atenção: não me convidem para distribuir sopa, fazer caridade em abrigos, orfanatos, etc.

Isto é esmola!

Eu quero mesmo ajudar a ter devolvido os nossos DIREITOS de saúde, educação, cultura e qualidade de vida que são garantidos pela Constituição e que devem ser viabilizados como retorno das nossas contribuições em impostos altíssimos que pagamos.

Infelizmente tenho que entender como “natural” e provável que duas ou três pessoas leiam este texto até o final mas, já será gratificante se estes se mantiverem reflexivos sobre o tema de forma positiva. Vai que o insconsciente coletivo se sobrepõe a nossa preguiça de pensar e reagir e consegue promover alguma “mudança”, né?

Danielah Teles
27/09/12

Um comentário:

  1. Deprimente e desprezível o que os nossos homens públicos fazem com o cidadão em geral. Só uma perguntinha? Você votou no PT???

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