terça-feira, 19 de março de 2013

A PROMOÇÃO




Cheguei em casa por volta das 21h30, a Luciana estava como sempre, com aquele mulambinho que ela alega ser mais confortável, de toca para manter os cabelos prontos para o dia seguinte e, certamente, com aquele calçolão com elástico meio frouxo (muito semelhante a um coador de café) que, segundo ela não machuca as virilhas (sempre descobria quando íamos dormir), se preparando para assistir a novela...

Abri a porta e, como eu deixei de ser uma novidade há muito tempo, ela não me dirigiu o olhar. Falei com as crianças, fui até o quarto colocar a minha pasta e a chamei:

- Luciana, pode vir aqui, por favor?
- Fala.  (com um tom: “ninguém merece, seja breve, a minha novela vai começar”).
- Fui promovido! (sem muita euforia, claro).
- Como assim? Ganhou mais trabalho ou vai ganhar mais? (sem nenhuma euforia)
- Uma promoção de verdade. Vou receber três vezes mais!
- Meu amooor (a última vez que me chamou assim, faz aproximadamente uns 2 anos quando o meu pai morreu), que maravilha, mas você é mesmo muito competente, sempre acreditei em você, blá, blá, blá...
Recebi um beijinho e fui tomar banho.

Durante o banho, não acreditei no aroma que estava sentindo. Estaria eu sonhando? Não. Era mesmo cheiro de bife frito na manteiga!

Quando saí do banho, a mesa posta: arroz, feijão, salada de tomate, farofinha e... Tudo fresquinho. Juro: não tinha nada de microondas.
As crianças já estavam nas suas camas e, a Luciana não estava.
Não deu tempo de procurá-la, estava com muita fome.
Foi um dia e tanto.
Escovei os dentes e fui pro quarto.
Não acreditei: a minha mulher estava sem toca, com uma lingerie maravilhosa, muito sensual (eu nunca tinha visto, nem sabia que ela usava estas coisas)... mas não deu pra pensar muito... Fiz amor com ela como se fosse com a minha namorada... (sim, eu tenho uma namorada. Uma mulher muito Boa. Boa em todos os sentidos, afinal, preciso que alguém diga que sou viril, atencioso, interessante... mas nossa relação é muito clara. Ela não tem esperanças, eu nunca as dei, afinal: sou um cara honesto).
Depois do amor, ela disse-me com uma vozinha de criança:
- A partir de amanhã vamos fazer tudo “zuntinhos”...
- Tudo bem...

1° DIA - Meu café da manhã já estava pronto quando terminei de me barbear. As crianças já de uniforme e pasmem: nenhum grito, nenhuma manifestação da histeria habitual da Luciana... (Ah... eu sou um cara muito sortudo).
Lá fomos nós...
Deixamos as crianças na escola, (ela apontou um ruidinho no carro que concordei apesar de não ter percebido) deixei a Lú no trabalho e fui para o meu.
Ela me ligou por volta das 10h e ... “ Nada não... só pra dizer “oi””...
Convidou-me pra almoçar e fomos. Foi ótimo.

Eu começava a redescobrir a minha mulher.
Final da noite (sem mulambo, sem toca), jantar fresco, beijinho,  outra lingerie, fizemos amor de novo!

2° DIA - Igualzinho ao primeiro, só que mais um ruído no carro apareceu.

3° DIA - Idem

4° DIA – Idem ( minha namorada me ligou. Deixei ir pra caixa, depois falo com ela. Ela vai entender.)

O 1° mês após a promoção correu assim: a família perfeita, a casa perfeita, só o carro que estava com uns probleminhas...
Ah... no 28° dia do mês fechamos a lipoaspiração da Lú. Ah... foi muito bom  ver aquele sorriso.

No 2° mês trocamos os estofados, as cortinas, redecoramos o nosso quarto e o das crianças.
Perguntei pra Lú:
- E o seu tratamento dentário (ela tem uma retorção maxilingual transversa do siso inexistente par)? Faz dois meses que você não vai ao dentista.
- Ah... Tô meio enjoada. Aquele dentista é meio lento. Qualquer dia retomo...

No 3° mês: O carro ano 2011 que tínhamos acabado de quitar,a Luciana me convenceu ser praticamente um fusca 1978, ela tinha razão:

- Decididamente: temos que trocar o carro.
- Não querido, eu posso usar este. Compra um pra você. Com a sua nova posição você tem mais necessidade de um carro atual, que impressione mais. Você merece.

4° mês: fomos a concessionária. Ela escolheu a cor, o modelo e até o vendedor que iria nos atender. Ela realmente é muito sociável. Estava tão radiante, tão feliz, tão completa que foi impossível não...

- Suas chaves!
- Como assim, mô? (com lágrimas nos olhos)
- É seu.
- Eu te amo! (e nos beijamos, na rua (ela odiava isso há quatro meses)).

A minha namorada? Não. Não temos mais nada. Eu não disse pra ela mas, ela é uma mulher inteligente. Deve ter entendido.
 Afinal, com uma mulher como a Luciana, quem precisa de namoricos?

26° dia do 5° mês.
Quando cheguei em casa a Luciana estava de  toca.
 E, com a nossa “nova intimidade”, resolvi perguntar:

- Que foi que houve? Piolho? (e sorri)
- Não... só quero mantê-los prontos pra amanhã. Tem um lanchinho no microondas.

Fomos dormir. Não era o coador, mas não era assim: uma lingerie... antes que eu adormecesse ela disse que reiniciou o tratamento dentário.

16° dia do 6° mês.
 A gritaria e o mal humor da Luciana estavam de volta, a sua apatia, os mulambinhos e a tal da toca.
Compreendi.  Não é fácil trabalhar, cuidar das crianças, administrar a empregada..

No 3° dia do 7° mês
Resolvi fazer uma surpresa pra minha mulher.
Liguei pra casa, mas a D. Junia disse que ela tinha ligado avisando que iria se demorar. Iria ao dentista.
O tratamento era muito complexo.
Ela ia ao dentista 3 vezes por semana.

Resolvi encontrá-la no dentista para irmos a um motel.
Desisti da idéia do motel, o dinheiro já não sobrava como antes. Temos muitas prestações. Mas, podemos comer uma pizza. Por que não?
Se eu corresse a alcançaria saindo do dentista.
E assim fiz.

Cheguei ao prédio.
Eu a deixava sempre lá, não sabia o andar, resolvi esperar no estacionamento. O carro dela ainda estava lá.
Esperaria e tudo resolvido.
E assim fiz.

Depois de uns 30 minutos a Luciana desceu, pra minha surpresa, com o Dr. Ricardo. Entraram no carro dela.
Pensei: “ Deve ter faltado algum equipamento, algum anestésico...” e os segui...

Não. Não estava faltando anestésico. Pelo menos, nunca fizeram a publicidade deste item à venda em um dos melhores motéis da cidade.

O que  mudou?

Nada.
Quer dizer... quase nada. Ela ainda usa os mulambinhos, a toca, o coador, assiste novelas, grita com as crianças... já os meus 3 salários a mais e as minhas horas de lazer estão comprometidos. Afinal, fui promovido.

Mas, eu sou um cara de muita sorte. Quem sabe não recebo outra promoção daqui uns 2 anos e vivo outros melhores momentos da minha vida de casado?

A namorada? Ah... a ligação sempre cai na caixa de mensagens. Ela nunca retornou. É uma mulher inteligente.

José da Silva
Promovido, endividado e ansioso pela próxima promoção!

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